Primeiro diálogo do Conexões 2016 discute revitalização de espaços urbanos

Para iniciar o papo no Conexões Globais – Cidades Democráticas, a mesa “Quarto Distrito de Porto Alegre – um polo da economia criativa e da inovação colaborativa” colocou no centro do palco a busca coletiva de novas ideias para os espaços urbanos. A partir de experiências como o Vila Flores e o Distrito Criativo, centrais no processo de revitalização do Quarto Distrito, uma série de debatedores trouxe suas leituras e perspectivas de como mudar as lógicas urbanas de dentro para fora, por meio de iniciativas confluentes e cidadãs. A mediação ficou a cargo de Cezar Busatto, secretário de Coordenação Política e Governança Local da Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

A primeira fala foi de João Wallig, mentor e articulador do projeto Vila Flores, que contextualizou a importância do espaço dentro do panorama de revitalização do Quarto Distrito. Partindo de uma lógica de “primeiro a vida, depois o espaço, depois os edifícios”, Wallig descreveu o processo de degradação que atingiu a área, colocando o Vila Flores – um centro cultural, espaço de convívio e troca de conhecimento – no centro dos esforços de revitalização do Quarto Distrito, que tem mais de 600 prédios históricos ao todo. “O Vila Flores é um exemplo do que aconteceu no Quarto Distrito. Primeiro na degradação, depois na vontade de transformar e retomar o uso a partir de uma rede de relações”, disse Wallig.

Direto de Barcelona, o webconferencista Josep Piqué, vice-Presidente da Associação Internacional de Parques Científicos e Tecnológicos, descreveu o processo de revitalização do distrito de Poblenou, um dos inspiradores das iniciativas junto ao Quarto Distrito. O projeto 22@Barcelona teve como norte, segundo ele, a construição de um desenho urbanístico adequado “para viver e trabalhar”, em uma lógica que estimulasse a mobilidade de pessoas, de criatividade e de cultura. “Se aprendemos algo em Barcelona, foi a necessidade de aprender a aprender, de estimular a criação coletiva de conhecimento”, descreveu. A partir de princípios de economia criativa, na qual a matéria-prima principal é o talento, e da participação do conhecimento universitário, o projeto buscou um ambiente onde os inovadores pudessem aplicar o que aprenderam em uma cidade real. A iniciativa de reconstrução do Quarto Distrito, na visão de Josep Piqué, “não acaba em Porto Alegre: ela começa em Porto Alegre para acabar no mundo. A partir dela, Porto Alegre estará conectada com outros ecossistemas de inovação no mundo”, concluiu.

Tarson Núñez, pesquisador em Ciência Política da Fundação de Economia e Estatística do RS (FEE), foi o próximo a ter a palavra. Descrevendo a si mesmo como “testemunha ocular” da transformação que o Vila Flores está promovendo no Quarto Distrito, acentuou a mudança de perspectiva econômica que é motivada por iniciativas coletivas como essa.  “A economia pensa muito em abstrações, números e quantidades. Essas iniciativas fazem com que os agentes econômicos se deem conta de que precisam olhar mais para as pessoas e territórios. Estamos em um momento de transição, saindo de um processo de máquinas para um modelo que valorize a criatividade”.

Nesse sentido, o Quarto Distrito da capital gaúcha traz várias características favoráveis, como a presença de muitos espaços ociosos e relativamente baratos, além da localização privilegiada, “a uma caminhada do centro”. Isso tudo, além de ampliar o potencial da iniciativa, favorece a consolidação de parcerias locais, compartilhando ideias e estratégias. Mas é preciso tomar cuidado e fugir do risco da gentrificação, segundo Tarson. “Não devemos buscar a recuperação da área expulsando antigos moradores e chamando apenas os mais ricos ou ‘hipsters’. O desafio é definir de que forma os empreendimentos podem interagir positivamente com a comunidade”.

A seguir, a arquiteta e urbanista na Secretaria de Urbanismo da Prefeitura de Porto Alegre (SMURB) Ada Raquel Schwartz trouxe sua contribuição, abordando a questão do ponto de vista urbanístico e das propostas da prefeitura para o Quarto Distrito, que vêm sendo discutidas desde os anos 1990. A prioridade, segundo ela, é reforçar o olhar em direção às pessoas, muito mais do que uma simples melhoria física e estrutural de espaços. “O que propusermos aqui tem alcance mundial”, acentuou, descrevendo uma proposta de intervenção que leve em conta os potenciais da região – que, como parte do centro estendido da cidade e próxima da rodoviária e do aeroporto, acaba tendo tres grandes dimensões: local, urbana (da cidade) e como hub da região metropolitana.

A ideia, defende Schwartz, é fazer do Quarto Distrito “uma porta de entrada, saída e conexão com o mundo”, usando princípios como a economia criativa para promover a “máxima interação” entre atores sociais que produzam conhecimento, criatividade e tecnologia. Respeitando, garante ela, as estruturas comunitárias da área, como a Vila dos Papeleiros e o trabalho das prostitutas. “Nossa intenção é promover mudanças que aproximem essas comunidades da cidade. Nunca retirá-las, sim integrá-las. Nós acreditamos que a força das pessoas tem uma riqueza enorme na solução dos problemas”, concluiu.

Na sequência, Walker Massa trouxe a experiência do Nós Coworking para os debates do Conexões. Saindo do protocolo, ele promoveu uma “experiência” de coworking, convidando as pessoas da plateia a conversarem umas com as outras. A ideia foi vivenciar na prática a ideia de troca que orienta o Nós Coworking: a capacidade de colocar gente diferente em um mesmo ambiente, em permanente interação e curiosidade umas com relação às outras. “O coworking não é um substantivo, é um verbo. É essa capacidade de articular e se conhecer, juntando pessoas diferentes. Isso gera divergência, e quando essa divergência encontra uma convergência é que surge a criação”, acentuou. “Isso acontece aqui no Vila Flores. Precisamos valorizar o que acontece aqui em Porto Alegre”.

A última fala foi de Jorge Piqué, fundador da UrbsNova – Agência de Design Social. Ele aproveitou seu tempo para falar sobre o Distrito Criativo, trazendo uma ampla explicação sobre a iniciativa – que envolve uma área total de 100 hectares, com 82 locais e centenas de pessoas mergulhadas em economias criativa, do conhecimento e da experiência. Para conectar tantos pontos em um terreno tão amplo, o empreendimento coletivo faz uso massivo da internet, que acaba sendo a principa ferramenta de conexão entre artistas e empreendedores. “É uma iniciativa muito concreta, que surge de pessoas. Não tem um perímetro”, acentuou Piqué, questionando o conceito de bairro (“meramente administrativo, não representa a realidade”) e preferindo tratar o Distrito Criativo como uma “nuvem”, que une participantes e espaços históricos em um modelo de democracia direta. E que depende dos pequenos locais tanto ou mais do que de grandes pontos centralizadores, como o próprio Vila Flores. “Grandes locais são estratégicos, mas não há a transformação de um grande território sem a participação dos espaços menores, que são a maioria”.

Dá para conferir imagens dessa e de todas as outras mesas do dia no Instagram e no Flickr do Conexões Globais. O nosso canal do YouTube em breve vai trazer a íntegra dessa e das outras mesas. E siga ligado na programação que ainda tem muita coisa massa para rolar!

Foto: Marcelo Curia e Anderson Astor

Igor Natusch
2 de abril de 2016
Igor Natusch - 2 de abril de 2016