Teve muita visibilidade LGBT no coração do Conexões Globais 2016!

As articulações em rede potencializam movimentos sociais não apenas em termos de abrangência, mas também na descoberta de novas trilhas e possibilidades de atuação. As demandas LGBT se multiplicaram a partir desse cenário – e a mesa “Diversidade sexual e de gênero: os desafios do ativismo em rede” colocou essas questões no centro do Conexões Globais, dando voz a uma busca coletiva por visibilidade e empoderamento.

Militante pelos direitos trans e pesquisadora da UFRGS, Sophia Starosta foi a primeira a falar. Após contar um pouco de sua trajetória de vida, Sophia dedicou-se a evidenciar e questionar a disparidade na presença de pessoas trans em espaços públicos. “Se muitas pessoas já não sentem que a cidade seja para todos, imagine pessoas trans, que não costumam nem estar nas ruas durante o dia”, afirmou. Na explicação dela, “colocar a cara na rua é um ato de resistência diária” para a comunidade trans – ao mesmo tempo que a sociedade consome esses seres humanos como um produto sexual.

“A sociedade considera que não temos direito de estar nas ruas. Nosso espaço está nas esquinas, ou seja, na prostituição”, afirmou Starosta, acentuando que o Brasil é, ao mesmo tempo, o país que mais mata pessoas trans e o que mais procura vídeos pornográficos ligados a elas em sites como Redtube. Essa oposição mórbida acaba criando uma cadeia de fatos limitadores para a cidadania dessa comunidade, como a dificuldade de acesso à saúde e a quase impossibilidade de obter um emprego formal. Por fim, Sophia apontou o caráter de ódio contra a feminilidade, presente no fato de que a maior parte dos atos de violência são contra as transexuais femininas. “Quando assassinam uma transexual, querem assassinar o feminino nessa pessoa. Os corpos femininos LGBT precisam se unir mais. Quando não envolve o pênis de um homem cis não existe saúde nesse país”, concluiu.

Na sequência, a palavra ficou com Juliana Moura Bueno, chefe de gabinete da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal. Em sua fala, ela explicou as iniciativas do poder público para inserir pessoas trans na sociedade e na cidadania, das quais ela toma parte desde sua atuação na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Juliana explicou que, quando começou a atuar junto à comunidade trans de SP, foram necessárias “muitas rodadas de diálogo” para entender as necessidades dessas pessoas. Dessas conversas, surgiram iniciativas direcionadas a esse nicho, envolvendo bolsas de estudo, capacitação profissional e salário social – o que, segundo ela, exigiu “muita batalha” para seguir em frente. “Aprendemos que as políticas públicas só avançam ouvindo as pessoas a quem as políticas se destinam”, relatou.

Juliana descreveu também o #HumanizaRedes do Governo Federal, que foca na produção de conteudo promovendo respeito na internet – e que, é claro, tem a população LGBT como um dos eixos principais. Ela expôs a dificuldade para desconstruir visões arraigadas contra populações marginalizadas e combater discursos de ódio e ações agressivas nas redes – além de deixar clara a necessidade de complementar esse esforço com a criação e aprimoramento de canais para apresentar e encaminhar denúncias.

Indianara Siqueira estava ministrando uma oficina e acabou chegando um pouco atrasada (por isso ela não aparece na foto que ilustra o começo da matéria), mas quando chegou foi para fazer uma das falas mais marcantes do Conexões 2016. Prostituta e responsável pelo PreparaNem, curso preparatório para o Enem voltado ao público trans, ela começou dizendo que, se cada indivíduo conseguisse ver os privilégios que tem, seria possível criar uma sociedade mais tolerante. “Tenho que saber que eu, mestiça, tenho privilégio sobre uma trans negra. Em uma seleção de trabalho, primeiro vão chamar a branca cis que encaixe nos padrões, depois as mestiças, depois as negras cisgêneras. Se sobrar vaga, virão as trans, e a negra vai ficar lá no fim da fila”. Após uma fala cheia de ironia sobre “cisfobia”, onde desconstruiu a ideia de que pessoas cisgênero sejam de alguma forma ‘oprimidas’ pela presença da população trans, Indianara explicou que o PreparaNem não quer “salvar ninguém”, mas sim oferecer uma alternativa em um cenário onde 97% da população trans trabalha na prostituição.

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“Não queremos tirar ninguém dessa vida. Eu sou puta com muito orgulho, mas a prostituição é hoje a única opção e queremos outras opções. Eu não quero estar na universidade, para mim é uma prisão, acho que só ensinam opressão nelas e que deveriam ser destruídas. Prefiro estar no puteiro. Mas a gente quer que exista essa opção, queremos que se possa escolher estar no mercado de trabalho ou na universidade”.

Essa visão direta de Indianara sobre o PreparaNem aplica-se também às próprias estruturas da sociedade, em um discurso forte sobre a liberdade de existir. “Nossa sociedade é construída em cima de mentiras e regras inventadas, que só servem para oprimir. O que é ser mulher? É algo inventado para designar o que não é homem. As práticas não precisam das teorias para existir. Nossas práticas não-contadas, nossas vivências deixam de tornar a sociedade mais diversa, mais inclusiva. Eu não sou trans, não sou mulher, eu sou uma pessoa de peito e pau”, concluiu, em meio a muitos aplausos.

Jornalista integrante do coletivo Aldeia e envolvida com várias iniciativas comunicativas ligadas a gênero e sexualidade, Nanni Rios iniciou sua fala comemorando a aula inaugural do TransEnem em Porto Alegre, iniciativa inspirada no PreparaNem e cuja primeira turma atende dezoito alunas, que ocorreu no mesmo dia do diálogo no Conexões Globais. Na visão de Nanni, é preciso buscar meios para a construção de uma memória LGBT – e ela enxerga a mídia como um potencial pouco explorado nesse sentido. “Há uma série de histórias e vivências que acabam sendo apagadas, uma história de ativismo que não está sendo registrada. Essas pessoas morrem e a história morre com elas. Quanta gente morre sem passar sua história para frente?”

Um dos espaços onde Nanni Rios transporta essa preocupação para a prática é o canal televisivo Octo, que tem promovido uma série de entrevistas com nomes da comunidade LGBT – um arquivo que, além de disponível para consulta, dá dimensão da abrangência dessas pessoas dentro da sociedade. “Não é uma minoria, é uma população enorme que muitas vezes talvez nem tenha espaço para estar lá (na mídia). Essa mesa é um reflexo do jogo que está mudando, é uma mostra de como essa necessidade de memória e visibilidade conquistou espaço. Não é preciso ser gay para lutar contra a homofobia, não precisa ser trans para lutar contra transfobia, negro para enfrentar o racismo”, acentuou.

Imagens dessa e de todas as outras atividades do Conexões Globais 2016 estão disponíveis em nossos perfis de Instagram e Flickr. Dá uma passada também no YouTube para conferir a íntegra de todos os diálogos, que em breve vai estar à disposição. Foram dois dias de muita troca e construção coletiva, e a gente adorou a presença de tod@s! Essa discussão não encerra aqui – tudo isso foi apenas o começo :)

Fotos: Marcelo Curia e Anderson Astor

Igor Natusch
3 de abril de 2016
Igor Natusch - 3 de abril de 2016