Feministas dão o recado no #ConexõesGlobais: 2016 vai ser MAIOR!

O levante feminista nas ruas e nas redes foi o ponto de partida para um efervescente debate sobre empoderamento da mulher e desconstrução de velhos padrões de gênero no segundo dia de Conexões Globais 2016, no Vila Flores, em Porto Alegre. O bate-papo mais quente do evento mobilizou um público diverso em torno de reflexões sobre machismo, misoginia, prostituição, maternidade, racismo e direito ao corpo.

A blogueira e professora universitária Lola Aronovich trouxe uma provocação pertinente ao tema do Conexões Globais este ano, que é cidades mais democráticas. “Pra começo de conversa, como a gente pode falar de espaço público se ele não é público para mulheres? Desde a infância a gente tem que pensar com que roupa a gente vai sair na rua, que horas a gente vai e como a gente vai voltar. Essas são indagações que fazem parte do nosso dia a dia. Quando a gente conta pros homens eles não acreditam, acham que é vitimismo. Mas é a nossa realidade”.

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Infelizmente naturalizado pela sociedade patriarcal, o abuso sexual é uma ameaça constante na vida das mulheres. “Nós temos o direito de ir e vir cerceado em inúmeros momentos. As coisas que ouvimos na rua não são cantadas. São assédio, invasão e demonstração de poder”, complementou Lola, que também expôs no debate os casos de violência que ela sofre na internet. “Enfrento cotidianamente ofensas e ameaças, inclusive à minha família, simplesmente por ter um blog feminista. Prometem, inclusive, atentados em locais onde eu vou dar palestra. De onde vem este medo dos homens em relação às mulheres que não se calam?”, indagou.

FEMINISMO PRA QUEM?
A feminista Negralisi da Rosa abordou a necessidade de entender as especificidades das demandas das mulheres negras na sociedade. “O fato de eu ter nascido negra me coloca num lugar social diferente do lugar da mulher branca. As estatísticas demonstram o genocídio da juventude negra no nosso país. É mais provável que eu vá morrer saindo daqui por algum tipo de violência, possivelmente vinda do Estado, do que eu morrer por alguma doença”.

Para contextualizar sua fala, Negralisi fez uma breve retrospectiva sobre a exploração a que as negras foram submetidas desde o Brasil escravocrata. Para iluminar o debate, ela também foi à origem do movimento feminista. “Enquanto as mulheres brancas estavam lá marchando e queimando sutiãs, reivindicando direito ao trabalho, as mulheres negras já trabalhavam há muito tempo. Existe uma divisão sexual do trabalho, mas também existe uma divisão racial do trabalho. Não ter esta compreensão é algo que muitas vezes nos afasta no movimento”.

 

Na avaliação de Negralisi, as opressões mais perversas são as pequenas coisas do dia a dia. “Eu sou uma feminista em construção. É um longo processo de tu te descobrir mulher e te aceitar mulher.  Enquanto este evento está acontecendo, milhares de mulheres estão sendo violentadas de diferentes formas. A maioria delas é negra. Então, a quem se refere o feminismo? Pois eu digo: o feminismo se refere a nós, as mulheres negras. Se não nos unirmos não vamos a lugar nenhum. Se eu não enxergo a irmã do meu lado, quem lucra é o sistema”.

A trabalhadora sexual e mediadora do debate Monique Prada levantou a bandeira dos direitos das prostitutas. “Se o feminismo é de todas as mulheres ele também é das prostitutas. Ou será que o direito ao corpo só vale para algumas mulheres?”, questionou Monique, acrescentando: “Ou será que uma puta só pode ser feminista se ela se redimir e encontrar a salvação? Pois que fique claro: nós, putas, também pensamos, também falamos, também trabalhamos”.

Monique, que é presidenta da Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais (CUTS) falou, ainda, sobre a regulamentação da profissão, leu trechos do texto Marxismo para prostitutas e disparou: “Os primeiros corpos a caírem numa guerra são os das mulheres. E os últimos a ser levantados são os das putas. Hoje eu estou na universidade e estou lutando para lotar a universidade de putas. A prostituição é uma opção entre ganhar mal ou ficar mal falada. Eu prefiro ser mal falada”.

O MACHISMO DO #MeuAmigoSecreto
A escritora Clara Averbuck levou a conversa na direção do machismo nosso de cada dia. O machismo sutil é o que mais pega. O machismo do teu brother. O cara que não te escuta porque tu é mulher. O cara que faz que não te ouve na reunião de trabalho pra depois roubar a tua ideia. O cara que te diminui simplesmente porque você é mulher”.

 

Clara contou que descobriu-se feminista após os 30 anos. “Até então, eu reproduzia machismos. Só consegui ver as outras mulheres quando saí daqui de Porto Alegre, saí do meu umbiguinho. Sem mulher negra, sem trabalhadora sexual, se não incluir todo mundo, o feminismo não serve pra nada. Eu demorei pra perceber o machismo cotidiano que está em toda a sociedade, inclusive o machismo que sempre existiu em relação à minha literatura”, expôs.

Generosa, Clara ofereceu uma dica especial aos homens presentes no debate: “Os caras sempre querem saber qual é o papel deles no feminismo. Eu diria que há duas coisas principais a fazer. A primeira é ouvir. Mas ouvir quieto. Se uma mina está te falando uma coisa, escuta. Em segundo lugar é importante conversar e explicar as coisas pro teu brother que não vai escutar nenhuma mina. Isso não acontece com vocês, mas quando a gente começa a ter voz, sempre tem alguém mandando calar a boca“, sustentou.

QUEM ESCREVE AS LEIS?
Ameaçado por um cotidiano implacável, não basta ao feminismo ser um estado de espírito, uma força de pressão social ou uma declaração de intenções. Diante do machismo incrustado na sociedade e de governos conservadores, para que seja um legado para as próximas gerações e ter eficácia, os direitos das mulheres precisam ser escritos nas leis. Este foi um ponto de vista defendido pela coordenadora do Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher no Brasil, Rubia Abs. “A visibilidade trazida pelo ativismo na internet fortalece a luta feminista nesse sentido”, sustentou. 

A professora Lola também falou sobre isso: “Uma das barreiras que eu vejo pra nossa luta é que hoje misoginia não é crime no Brasil. Homofobia não é crime. Transfobia não é crime. Precisamos nos unir para mudar isso. A gente precisa saber do poder que a gente tem. Muitas vezes a gente fica perdendo tempo brigando entre si.  Nós somos 52% da população. É muita gente! Só vamos mudar a realidade juntas”.

Negralisi fez uma intervenção sobre o assunto, apontando a fragilidade das legislações. “A Maria da Penha também é Lei mas não resolve. Nós temos mais mulheres mortas por causa da Lei pois não temos abrigo familiar. A mulher vai lá, denuncia e precisa voltar pra casa em que foi agredida”, sustentou.

A ativista, que também é estudante de enfermagem, destacou que o racismo é crime no Brasil e nem por isso é penalizado. “O momento mais feliz da minha vida foi quando eu estava grávida, porque meu filho estava dentro da barriga e eu sabia que para fazer algo contra ele teriam que passar por mim. Hoje é diferente. Agora, quando meu telefone toca eu já acho que pode ser alguém falando que aconteceu algo com meu filho, porque ele é negro e é assim que acontece”.

Aproveitando o ensejo, Negralisi deu um recado pontual aos movimentos de maternagem. “Parem de colocar a exclusivamente a maternagem como uma solução. Todos estes problemas que acontecem em relação à infância é porque ainda não inventaram a paternidade. Nós estamos sobrecarregadas. O dia em que inventarem a paternidade, me avisem”.

O último diálogo do #ConexõesGlobais contou, ainda, com a participação via web de Jaqueline Gomes de Jesus – Psicóloga do Núcleo Interdisciplinar de Ações para a Cidadania da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Jaqueline também é doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília, com pós-doutorado pela Escola Superior de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro.

SEGUE O BAILE!
Imagens dessa e de todas as outras atividades do Conexões Globais 2016 estão disponíveis em nossos perfis de Instagram e Flickr. Dá uma passada também no YouTube para conferir a íntegra de todos os diálogos, que em breve vai estar à disposição. Foram dois dias de muita troca e construção coletiva, e a gente adorou a presença de tod@s! Essa discussão não encerra aqui – tudo isso foi apenas o começo  =)

Fotos: Marcelo Curia e Anderson Astor

Nanda Barreto
4 de abril de 2016
Nanda Barreto - 4 de abril de 2016