Banda Tagore

Dia 02/04 – 19h30 às 20h

Tagore é um cantor de rock. Tagore é um artista pernambucano que afirma sua origem em cantos insuspeitos ou evidentes de sua música. Tagore é Dylan, é Raul, é Alceu, é Tom (o Zé, não o Jobim, talvez o Yorke mais que o Waits), é Stones, é Sampaio, é Ronnie Von tropicalista, é Doors, é Ave Sangria, é Beatles de “Revolver”. Tagore é um cordel ilustrado por Moebius. Tagore é futurista como se era há décadas – steampunk passado não na Europa vitoriana, mas no Recife contemporâneo (com a cabeça na virada dos 1960 para os 1970). Steam=vapor. “Movido a vapor”, como crava o título do primeiro álbum do grupo, lançado agora, três anos após o elogiado EP “Aldeia”.

Aldeia – a velha história de partir dela para o chegar ao mundo, mais do que isso, de tomá-la como o mundo. Aí começa a história, literalmente. Tagore Suassuna – que já conseguira certa atenção em Recife com sua banda Keith – chamou seu amigo João Felipe Cavalcanti e juntos eles passaram duas semanas isolados numa casa em Aldeia, bairro de Camaragibe (região metropolitana de Recife). Saiu de lá com as músicas do primeiro EP, gravadas esquema lo-tech. A valiosa pedra bruta garantiu a ele lugar em festivais como Abril pro Rock e Coquetel Molotov.

Agora, em “Movido a vapor”, ele lapida as ideias e a sonoridade que estavam latentes e evidentes já em “Aldeia”. As letras são surpreendentes – de imagens ora delirantes, ora simplesmente de uma originalidade crua – ao mesmo tempo em que soam fáceis, redondas aos ouvidos. “Amor é pura tarde londrina”, “Capturar arara é coisa feia, dá cadeia, marginal”, “É cadeira cativa entre o sol e a lua/ É Gil e Caetano transando na rua”, “Não compro cimento pra cobrir saudade”… Surpresa e sedução – pop, enfim, o do melhor tipo. A sonoridade segue a mesma trilha. Seu classic rock lisérgico, épico e com calor juvenil (de quem, frente ao fim do mundo, diz “deixe de pose”, como faz na faixa “2012”), soa novo não por fusões com regionalismos – que existem, mas em doses mínimas, a afirmação de Pernambuco ali é mais sutil que isso -, mas sim porque melodias e arranjos jogam para um lugar único. A regravação de “Todos os olhos”, de Tom Zé, e “Morena tropicana”, de Alceu, ajuda a entender esse lugar especial do Tagore. Não apenas pelas pistas dadas pelas duas referências, a forma como ambos lidam com invenção e tradição. Isso está ali, mas outra informação se extrai das duas faixas. Da casa dos 20 e poucos onde está, Tagore mostra maturidade para encarar duas músicas que originalmente tiveram registros personalíssimos (uma delas, a de Alceu, um hit de enorme sucesso). Pegou as canções para si de forma rara, confirmando o domínio total sobre esse universo movido a vapor no qual se move.

Texto: Leonardo Lichote

Foto: Divulgação

Igor Natusch
10 de março de 2016
Igor Natusch - 10 de março de 2016